Páginas

terça-feira, 23 de julho de 2013

Francelmo: Morreu um defensor da vida

Francelmo: Morreu um defensor da vida

  
 
Abel Costa de Oliveira*
Segundo alguns estudiosos da psicologia, o ser humano ao perpetrar o suicídio o faz desenvolvendo o pensamento de que já não nutre "nenhuma chance" diante de questionamentos, lutas, reivindicações, dilemas que passam a entender fracassados, e sem chances de recomeço. Desse modo ao pretender fugir dessa sua convicção, vai aos poucos se esquecendo de suas qualidades, diante de uma sensação de fracasso, acaba pondo fim à própria vida crente de que assim agindo, por força desse seu ato, transmite um encorajamento aos que ficam estimulados a continuar sua luta. E isso se vê em trecho da missiva endereçada ao companheiro de batalha pelas causas ambientalistas, o advogado Douglas Ramos, onde pede ao amigo que ele continue a batalha por ele. “Ele me diz na carta que eu continue, pois ele se foi por já estar cansado de lutar. Entregou os pontos”, relata (afirmações de Douglas Ramos).
Em outra carta endereçada aos seus colegas de imprensa, o personagem a quem vamos nos referir brevemente, deixou evidente sua frustração no que refere à política ambiental adotada no Brasil e no Estado de Mato Grosso do Sul, que ignora o clamor dos defensores da natureza, cujos, são passados para trás. E usou a seguinte frase para definir seu desencanto: “estamos vendo o barco afundar e ninguém diz nada” (Carta à Imprensa).
Estou fazendo alusão a um homem que a morte matou, mas não morreu. Estou me referindo a Francisco Ancelmo  Gomes de Barros, que aos sessenta e cinco anos de idade, em meio a um movimento de protesto ambientalista contra a implantação de usinas de álcool  e açúcar na região periférica da Bacia do Alto Paraguai – o Pantanal -, ateou fogo ao próprio corpo. Um homem que sempre fez irradiar a vida, transmitia alegria, otimismo, sempre amável com aqueles que o cercavam. Um jornalista ético como era considerado por todos. Seus pares o tinham como: “um grande empreendedor, estrategista, persuasivo e amigo do otimismo”.
Porém, num ato que colheu de surpresa a todos que o conheciam, embalado pela sua convicção ou pretendendo encorajar àqueles que liderou em prol das causas ambientais, submeteu-se ao martírio e incendiou seu próprio corpo, convencido de que com a sua morte a causa que defendia teria continuidade. A razão de tal ato é entendida por seus seguidores como: “É possível destruir um sonho de um ser humano quando sonha para si, mas é impossível destruir seu sonho quando ele sonha, com e para os outros, o sonho coletivo da transformação” (Nota da Fuconams).
De sorte que Francelmo sempre dedicou sua vida ao amor da humanidade. E por esse mesmo amor acabou por destruir a sua própria vida, porém, defendendo uma causa justa, ou seja, o meio ambiente, que significa a continuidade da vida. A ideologia da vida. O biocentrismo.
Através da ONG por ele criada – a FUCONAMS -, fazia ecoar seu grito, e a tantos decibéis que atingia até mesmo os ouvidos “mocos”, os quais nem sempre absorviam a mensagem e seu alto teor. O que o levou a praticar a tragédia, como forma de protestar, no entanto na qualidade de mártir. Ou herói.
Nosso homenageado era um sonhador, sonhava com um mundo melhor. Jornalista, escritor, coerente, inteligente, persuasivo, idealista, franco, patriota, religioso, calmo, pacífico, escondeu de todos, e até mesmo dos mais íntimos a coragem de entregar sua vida por uma causa. E de forma tão sofrida que nos leva a refletir o martírio de São Lourenço, que de igual modo foi queimado, assado, por ato de seus algozes. Contudo, São Lourenço, não se entregou, aceitando o martírio que lhe fora imposto, eis que defendia uma causa justa, o Cristianismo.
Como justa foi a causa sempre defendida por Ancelmo. O meio ambiente. A natureza. E a vida em sí.
Perdemos um grande homem. Um pensador. Um batalhador. Um exemplo. Exemplo que para ser definido corretamente torna necessário a pena de Castro Alves ou a eloqüência de Rui Barbosa. Tão grandes foram suas batalhas.
O ato praticado por Francelmo, talvez  neste momento não possa ser entendido, outrossim, com o transcorrer do tempo, quando as coisas forem acontecendo, a exemplo de uma tela pintada que a medida em que, vamos nos distanciado dela, vai clareando, tornando-se nítida, de modo que possamos vislumbrar a grande arte nela estampada.
Francisco se entregou a uma ideológica ação, a exemplo do outro Francisco. O Santo. São Francisco de Assis, o Padroeiro dos animais e da ecologia.
Assim será a entrega de nosso homenageado. Sua atitude por certo não será vã.  Semeou e da germinação restarão frutos a serem colhidos, pois como pontuam seus companheiros de FUCONAMS, “O sonho não acabou”! Pois, Francelmo vive!
 * Consultor Jurídico Ambiental e Professor de Direito Ambiental

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Ciências sem fronteira - Bolsa de estudo na alemanha

Doutorado

Ciência sem Fronteiras - o programa

Ciências sem Fronteiras é um programa de bolsas do governo brasileiro que visa contribuir para a consolidação e internacionalização da ciência e tecnologia no Brasil. O programa promove o intercâmbio de estudantes e pesquisadores nas áreas de ciências exatas e engenharias. Através do programa Ciências sem Fronteiras, o governo brasileiro busca contribuir efetivamente para a inovação e o desenvolvimento dentro do país, fortalecendo assim a competitividade brasileira no cenário mundial.

Participantes brasileiros

O programa de bolsas Ciências sem Fronteiras é destinado a estudantes e pesquisadores brasileiros das seguintes áreas (lista detalhada). Os editais são elaborados pelas instituições brasileiras CAPES e CNPq. Os estudantes e pesquisadores interessados devem se dirigir ao setor de relações internacionais de suas universidades para obter informações sobre os requisitos e as modalidades de candidatura. Em caso de aprovação, o futuro bolsista  pode escolher nessa plataforma a vaga de seu interesse e processar a sua candidatura on-line.
Os interessados recebem antecipadamente um resumo de todos os projetos para doutorados.
Candidatos a doutorado podem fazer a sua candidatura on-line.

Universidades e institutos de pesquisa alemães

As universidades e os institutos de pesquisa alemães oferecem as vagas de estudo e pesquisa on-line. Após a aprovação das ofertas pelo DAAD, os estudantes e pesquisadores brasileiros podem apresentar a sua candidatura on-line no portal.
Universidades e institutos de pesquisa podem apresentar on-line seus programas de doutorado.

terça-feira, 25 de junho de 2013

A revolta dos filhos da classe média.


Por sucessivos Governos a classe média brasileira vota errado e paga um preço alto por isso. Pesquisa da  Data Folha mostra que um percentual expressivo da sociedade favoráveis a manifestação tem renda superior a cinco salários mínimos. Outro percentual significativo, com renda até dois salários mínimos é contra os protestos, somados aos mais idosos.  
O sociólogo Paulo Cabral, em entrevista concedida no programa Noticidade, da FM Cidade, na segunda feira, resgatou que foi a classe média tradicional Brasileira que elegeu Collor de Mello e pagou com o confisco da poupança. Depois apostou em Fernando Cardoso e amargou mais de oitos anos de achatamento salarial e perdas de direitos, depois, uma parte, elegeu Lula  e começou a dividir espaço com os mais de 30 milhões de brasileiros que saíram das classes D e E.
Além de ser penalizada com um imposto de renda agressivo, com alíquotas de até 30% da renda, empurrada por aumentos históricos do salário mínimo, preços abusivos nos combustíveis, ela teve que dividir as ruas com mais automóveis com a democratização do crédito, os espaços nos aviões, os aeroportos e até as compras em Nova York ou os passeios na Disneylândia.
Perdeu também o privilégio de usufruir a totalidade das vagas nas universidades públicas,  pois com a instituição das cotas perdeu 50% das vagas. Mais a gota d’água, na opinião de Paulo Cabral, foi a nova regulamentação do trabalho das empregadas domésticas, rompendo um ciclo de trabalho semiescravo, gerando demissão e a incorporação das atividades domésticas, anti relegadas a trabalhadores de segunda classe.  
Após várias tentativas de emplacar a bandeira de combate a corrupção pela internet, com atos esvaziados,  este segmento da sociedade se apropriou de bandeira legítimas do movimento popular: o passe livre e as desocupações de áreas para obras da Copa do Mundo, principalmente em torno do Maracanã e o Mineirão.
Por meio de sistema de comunicação horizontalizada, patrocinada pelas redes sociais, criou uma identidade com as demandas reprimidas historicamente: saúde, democratização nos meios de comunicação, contra a PEC 37, combate a homofobia, transparência do Estado, punição severa a corrupção.
Um exemplo disso é que em Campo Grande boa parte dos organizadores redes do Facebook são alunos de escolas privadas. 
Os movimentos de rua dos jovens com uso de tecnologias como Android, Apple, Instagram, pegaram os Governos Federais e Estaduais, os partidos políticos, tanto de esquerda, como centro e direta, e as organizações formais da sociedade de calça curtas e coloca na agenda uma nova forma de organização, atropelando as formas tradicionais de se fazer política.
Sem lideranças personalizadas, apartidária, a classe média, endividada, não vê suas reivindicações contempladas nem mesmo pelo PT, agregou os mais diversos setores da sociedade, inclusive os mais atrasados, de integralista, a marginalidade acuada com a ação ostentiva dos policiais nos redutos da criminalidade, ao agronegócio que defende a continuidade da expropriação das terras indígenas.
O crescimento das mobilizações foi apropriado pelos grandes conglomerados econômicos da comunicação que agora tentam, mais uma vez, fazer a pauta política do Executivo e do Legislativo, mesmo também repudiados.
No mais a “geração Coca Cola”, explodiu, tem pressa e propostas, mesmo sem entender  direito o funcionamento dos poderes formais, inverte a lógica da pauta política, faz políticos  trabalharem e os Governos a reverem suas agenda  políticas e prioridades. 
Parafraseando o  jornalista Paulo Henrique Amorim chegou a hora do Governo Dilma refletir sobre a política econômica de “ser mãe dos ricos e pai dos pobres”.
Tem o desafio de fazer as reformas necessárias, mesmo sem for preciso convocar consultas populares  e rever a política de enforcamento da classe média, dotando as cidades de estruturas necessárias para que o País reduza o seu IDH.
Para tanto, terá coragem de meter o dedo na ferida e colocar na pauta o imposto sobre fortunas, reduzir impostos indiretos como o ICMS  rever a política de renuncia fiscal para os grandes grupos econômicos.
A Receita está nas ruas, basta ter habilidade, sintonizar as demandas e governar para a maioria.
O autoritarismo não pode  substituir a democracia.  
Em tempo, sugiro que assistam o filme "Chovem em Santiago", pois a classe revoltada é a mesma.

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Protestos não podem virar Coca Cola

Tramita no Congresso Nacional o projeto que preconiza a Reforma Eleitoral. Os protestos de ruas que assolam o País mostram o total descrédito das instituições: Executivo, Judiciário e Legislativo. A juventude do Pais e boa parte dos cidadãos de boa fé estão apontando que o atual sistema de representação politica faliu, torna os parlamentares longe dos seus eleitores e de suas ansiedades, facilmente suscetíveis ao balcão de negócios que virou nossa política do toma lá dá cá. 
Em nosso pais, para nossa tristeza, a figura do político está associado a bons salários, corrupção e esperteza, inclusive com aval de boa parte da sociedade que vota por conveniência ou em troca de favores. 
Sou daqueles cidadãos que não se acostumam a política de usurpação do dinheiro público. Ainda vejo na política a nobre arte de representar os anseios da sociedade, dialogar, reivindicar, definir a pauta prioritária do País e os respectivos orçamentos e, o mais importante, fiscalizar o emprego de públicos. 
O Grito das Ruas, avessas aos partidos políticos e a velha politicagem, agora tem ter ressonância nos próprios partidos, no Congresso, no Judiciário e no próprio Governo Federal, que deve repensar sua pauta política, aproveitar a onda e fazer o que o Brasil precisa, urgente: aprovar a Reforma Eleitoral, fiscal e tributária, aprovar o orçamento impositivo, priorizar investimentos na saúde, no transporte de massa e melhorar o atendimento dos serviços prestados à população.
Após a onda de protestos, cabe, agora, a nossa juventude, mostrar a classe política o que o Brasil precisa para avançar rumo a verdadeira democracia, mais igualitária e justa socialmente. Os protestos não podem ter apenas o efeito Coca-Cola, depois que explode, fica choca, sem graça e acaba sabor. 

segunda-feira, 20 de maio de 2013

PT de Campo Grande realiza Sarau nessa sexta-feira

Com o objetivo de reaglutinar  filiados, militantes e simpatizantes, o Diretório Municipal do PT Campo Grande promove nesta sexta-feira o seu I Sarau Cultural de 2013. No evento acontecerá apresentações musicais com cantadores ligados ao partido, com bar a preços menores de que os praticados no mercado. Participem e compartilhe o evento no seu facebook. 




Agetran: Bernal dorme na com os inimigos

Servidores que apoiaram o radialista e atual de Campo Grande  prefeito,  Alcides Bernal, não entenderam o jogo político de bastidores que acertaram o time para jogar no comando da Agência Municipal de Trânsito (Agetran). Conforme o grupo, os nomeados são da panela do principal opositor do prefeito na Câmara de Vereadores, o empresário Airton Saraiva (DEM), fizeram campanha para o ex-prefeito Nelson Trad Filho (PMDB), perseguiam os bernaldistas e foram agraciados por cargos de chefia e supervisão. Além disso reclamam da mesmice que graça sobre o órgão. Predomina a falta de condições de trabalho, o trânsito continua sem um plano operacional de mudança a curto, médio e longo prazo. Dizem que a engenheira  mineira nomeada para o cargo andava de mãos dadas com ex-titular do órgão, Rudel Trindade. Em tempo, os fiscais de transporte continuam sem fiscalizar os ônibus nas linhas e sem talão de autuação na mão, bem ao gosto dos empresários da Assetur. Ou seja, eles continuam mandando no sistema de transporte público de Campo Grande. Pelo jeito, nosso prefeito progressista andam dormindo na cama com o inimigo e jogando para a plateia.

Itamarati garante a prosperidade de 17 mil pessoas no MS


Itamarati garante a prosperidade de 17 mil pessoas no MS

10 de maio de 2013

Por José Coutinho Junior
Da Revista Sem Terra - Edição Especial*

Se as estradas do Mato Grosso do Sul têm algo para ensinar ao viajante é o quão presente o latifúndio se faz no estado. No trecho de 120 quilômetros entre os municípios de Dourados e Ponta Porã, o que mais se vê são as plantações de cana, eucalipto, soja e usinas de grandes empresas, como a Bunge, uma corporação dos Estados Unidos. São enormes extensões de terras onde não se avista ninguém: é como se aquelas plantações tivessem surgido ali naturalmente, sem precisar do cuidado de seres humanos.
Não é para menos. Mato Grosso do Sul ocupa o primeiro lugar em concentração de terras no Brasil, com os estabelecimentos acima de mil hectares nas mãos de 10,18% de latifundiários, propriedades essas que totalizam 77% do território total, segundo dados do último Censo Agropecuário, de 2006.
Em meio a essa alta concentração de terras, surge em 2002 o assentamento Itamarati, fruto de duas ocupações de terras (uma em 2002 e outra em 2005). A área de 54 mil hectares que pertencia ao proprietário Olacyr de Moraes, conhecido como “Rei da Soja” assentou 17 mil pessoas de diversos movimentos sociais, como MST, Central Única dos Trabalhadores (CUT), Federação dos Trabalhadores na Agricultura (Fetagri) e os ex-funcionários da fazenda, organizados na Federação dos Agricultores Familiares do Itamarati.
Com tamanho contingente de pessoas, o Itamarati não apenas conta com os lotes rurais dos assentados, mas também é constituído por áreas de agroindústrias, de responsabilidade das cooperativas, e por um pequeno centro comercial, no qual existem restaurantes, brechós, bares e mercados.
Além disso, o assentamento tem quatro escolas e um posto de saúde, que em breve deve se tornar um hospital. Por conta do tamanho e da quantidade de demandas no assentamento, será instaurada uma subprefeitura, para levar as demandas do assentamento a Ponta Porã.
Duas formas de trabalhar a produção agrícola caracterizam os cultivos das famílias: individual e coletiva. Nos lotes individuais de até 10 hectares, vivem as famílias, que produzem uma grande diversidade de produção de frutas e vegetais, como acerola, laranja, mandioca e criação de animais, voltadas ao consumo e para vender.
Já as 66 áreas coletivas têm por volta de 120 hectares e um pivô de irrigação compartilhado, capaz de concentrar a produção em larga escala, de onde se extraem os alimentos para a comercialização. Há plantação de milho, soja, amendoim, feijão e pastagem para o gado.
Cooperativas em desenvolvimento
O Itamarati conta com duas cooperativas, responsáveis em grande parte pelo crescimento econômico e desenvolvimento do assentamento. A Cooperativa dos Agricultores Familiares do Itamarati (Cooperafi) é responsável pela venda da produção de leite, a mais expressiva do assentamento, e pelo tratamento dos grãos produzidos. Dados da Cooperafi apontam que a produção de leite chega a 500 mil litros por mês, ao passo que soja, milho e feijão (produção mais recente), atingem um milhão, 800 mil e 200 mil sacas por safra, respectivamente.
Para realizar o tratamento dos grãos, a cooperativa conta com o maquinário que já pertencia à fazenda: galpões que fazem a secagem e limpeza, além de 10 silos de armazenagem, que comportam 70 mil sacas cada, e um silo maior, atualmente desativado, capaz de comportar 1,5 milhão de sacas. A prestação de serviços, que é o tratamento e armazenamento dos grãos de outros produtores e empresas, é uma das principais fontes de renda da cooperativa, além de uma pequena porcentagem nos lucros da venda do leite.
“Temos planos de reformar pelo menos 25% do silo maior até fevereiro do ano que vem, assim vamos ter uma capacidade boa de armazenamento, e poderemos fechar uma parceria com a Conab (Companhia Nacional de Abastecimento) para prestar serviços”, afirma Jacob Alberto Bamberg, presidente da Cooperafi.
A Cooperafi tornou a produção de leite do Itamarati economicamente viável. Apesar da grande quantidade produzida pelos assentados, não era possível competir com outras empresas da região, pois havia um cartel para baixar o valor pago aos produtores, estabelecendo um preço de R$0,30 centavos por litro de leite. Depois do surgimento da cooperativa, em 2010, a situação dos produtores mudou. A Cooperafi paga R$0,78 por litro de leite, um dos melhores preços do estado, e consegue estabelecer a competiçãodevido à grande quantidade comercializada.
“O objetivo da cooperativa não é obter lucro, e sim desenvolver o assentamento. O dinheiro que ganhamos é investido no Itamarati, e muitas vezes temos prejuízo. O pagamento do leite é algo que nos dá prejuízo, mas fazemos porque sabemos da importância para o assentamento e os produtores. Se o assentamento vai mal, a cooperativa vai mal”, afirma Valdecir Kreusch, funcionário da Cooperafi.
Vendo a precariedade da assistência técnica oferecida pelo poder público, a cooperativa também contratou técnicos que vivem no assentamento, especializados na recuperação do solo e uma veterinária. Além disso, há planos de construção de um laticínio (para agregar mais valor ao leite), de frigoríficos, de cisternas para o período das secas e a correção do solo.
Sementes crioulas
Da necessidade dos assentados de suprir a demanda por sementes de melhor qualidade, surge no ano de 2006 a Cooperativa Agroindustrial Ceres (Coopaceres). Seu principal objetivo é produzir sementes para fora do assentamento, o que não significa que os assentados não sejam beneficiados pela cooperativa.
Ao contrário, além de receberem as sementes, os produtores do Itamarati iniciaram a produção de 500 toneladas de feijão, plantadas por 180 assentados. Parte foi exportada para a Venezuela, que comprará mais mil toneladas na próxima safra.
Além desse feito, a cooperativa, em parceria com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), já produziu sementes de girassol, que foram vendidas à região nordeste do país. Outro êxito foram as produções de sementes de feijão e milho, iniciadas em 2011 e que foram compradas pelo Programa de Aquisição de Alimentos (PAA).
A gestão de ambas as cooperativas funciona por meio de assembleias com os sócios (que são os produtores filiados às cooperativas) onde é avaliado o que fazer com os recursos obtidos.
Desafio da produção 100% agroecológica
Ao andar pelo assentamento e observar a qualidade de vida das milhares de famílias que ali vivem, com suas casas muito bem estruturadas, os mais variados cultivos e formas organizativas e coletivas de produção, não resta dúvida de que a Reforma Agrária no Itamarati foi muito bem sucedida, principalmente por ter sido capaz de assentar uma grande quantidade de pessoas e dar a elas condições de produzir.
No entanto, desafios a serem superados também fazem parte do dia a dia do assentamento. O principal deles, talvez, seja revolucionar o modelo agrícola, eliminando a produção de soja e milho transgênicos e o uso de agrotóxicos.
Para Olívia de Moraes, diretora do colégio Carlos Pereira, isso ainda ocorre porque “nos dois primeiros anos de assentamento as pessoas foram convencidas por agrônomos da região de que estas terras eram uma mina de ouro, e que todos ficariam ricos rápido. A maioria dos produtores investiu nas lavouras, mas como tivemos um período de seca, eles perderam tudo. Muitos inclusive deixaram o assentamento por conta desses primeiros anos”.
Some-se a isso os cartéis aplicados pelas empresas, principalmente para diminuir o valor do preço do leite e do feijão, e muitos produtores que criavam gado venderam seus animais e se voltaram para a soja transgênica para garantir renda. Com o surgimento da Coopaceres em 2006, e da Cooperafi em 2010, há possibilidades reais de alterar a produção. “Muitas pessoas que plantavam soja já começam a voltar a criar gado, pois a Cooperafi torna a produção do leite cada vez mais viável. E a renda do leite é regular, diferente da soja, que só vem no fim da safra”, acrescenta o assentado André Aparecido Bispo.
Da mesma forma, com as sementes de feijão produzidas pela Coopaceres, a produção desse grão começa a crescer no assentamento, oferecendo mais uma alternativa economicamente viável à soja.
O uso de agrotóxicos também preocupa os assentados. Para Ana Carla Ferrari, moradora do Grupo Coletivo Eldorado dos Carajás, a bandeira da produção orgânica é a mais importante nos próximos anos.
“Sabemos da importância da produção orgânica, tanto para a nossa saúde quanto para o meio ambiente, mas não é algo que podemos fazer sozinhos. A área em que plantamos é coletiva, então não adianta nós plantarmos o orgânico e todo o resto continuar plantando transgênico, pois o orgânico seria contaminado. Para dar certo, vamos precisar conscientizar todos que produzem dos benefícios do orgânico. É um desafio grande que temos para os próximos anos”.
Sebastião Simão, também membro do Grupo Coletivo, convive com a aplicação de agrotóxicos diariamente, sem o uso de equipamentos. “Muitas vezes tenho náuseas só de sentir o cheiro do veneno. Se um dia começarmos a planar orgânico, tenho certeza de que vou viver alguns anos a mais”.
A Coopaceres também exerce um trabalho de conscientização dentro do assentamento para que produtores parem de usar sementes transgênicas de soja e milho. “Já fomos convidados pelas empresas para produzir sementes transgênicas, mas recusamos pois sabemos dos seus impactos. As transnacionais não se preocupam com o pequeno produtor ou o meio ambiente. Nosso primeiro passo é convencer os produtores a produzir o não transgênico, alertando para os danos à saúde causados pela cultura e mostrando que a rentabilidade da variedade convencional é pelo menos de dois a cinco reais maior por saca”, afirma Ronaldo José Pucci, militante do MST e presidente da cooperativa.
Os avanços pelos quais o Itamarati passa são grandes. As cooperativas realizam ações concretas há apenas dois anos, e os resultados já alteram a dinâmica de produção do assentamento. Se esse ritmo continuar, em alguns anos o Itamarati pode, além de produzir em alta quantidade, quebrar com a lógica agrícola estabelecida pelas grandes empresas. “É possível realizarmos esse rompimento aqui, só precisamos de mais tempo e recursos”, finaliza André.
Os frutos da prioridade à educação
Os 4 mil alunos dos ensinos fundamental e médio do Itamarati são contemplados com as quatro escolas públicas existentes dentro do assentamento. A enorme quantidade de crianças e jovens faz existir no Itamarati a maior escola em área de assentamento do país, chamada Nova Itamarati, com 1600 educandos.
Criadas em 2002, as escolas surgiram logo após a consolidação do assentamento. Com uma educação precária, de início a escola Itamarati ainda pertencia ao dono da fazenda, que não permitia a entrada dos alunos assentados e não existiam outras escolas por perto. O Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) então negociou com o governo, e a escola José Edson foi a primeira a ser criada.
Logo depois se construiu a Nova Conquista, Carlos Pereira e a Itamarati, que foi apropriada pelos assentados, tornando-se a Nova Itamarati. De acordo com André Luiz da Silva, coordenador pedagógico e professor da escola José Edson, a estrutura da escola é suficiente para garantir a qualidade do ensino. “Temos professores formados, bons materiais pedagógicos, sala de tecnologia com 25 computadores. No ranking municipal do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), ficamos em quarto lugar do primeiro ao quinto ano, enquanto que nosso nono ano ficou em primeiro lugar. Temos também um projeto de horta coletiva, no qual todos os alunos se envolvem para cuidar e plantar”, comemora o educador.
Uma frota de ônibus escolares que circula por todo o assentamento é responsável por trazer e levar os alunos. Mas o principal aspecto do ensino no assentamento é o processo de aprendizado crítico dos estudantes.
Segundo Olívia de Moraes, diretora do colégio Carlos Pereira, a educação no campo precisa se adaptar à realidade vivida pelas crianças. “Estamos trabalhando com as nossas crianças no sentido de criar um senso crítico. Mostramos os dois lados da moeda de temas como o agronegócio, mas a opção é ele quem vai fazer. Nossos estudantes apresentam seminários bem polêmicos e criam um clima de debate entre eles, algo que não vemos em outras escolas, onde os estudantes saem de forma passiva. Aqui eles se preparam para sair melhor nos debates em sala de aula”, comenta.
A demanda por educação no Itamarati não se supre apenas nestas escolas. Há um projeto de se criar uma creche para as crianças menores, além de outra escola que está sendo construída para comportar novos alunos. Os assentados também estão em contato com o Instituto Federal do Mato Grosso do Sul (IFMS) para tentar abrir cursos de nível superior dentro do assentamento. Segundo o militante do MST, André Aparecido Bispo, “há uma demanda grande no Itamarati por cursos de graduação. Se conseguirmos abrir cursos de zootecnia e veterinária, por exemplo, a procura seria alta, além de ser uma forma de manter a juventude no assentamento”, acredita.
 
* Esta reportagem faz parte da Revista Sem Terra Edição Especial - Produção nos assentamentos, que será lançada em 2013 pelo MST.